A endometriose não possui uma causa única. As evidências indicam uma doença multifatorial, na qual predisposição genética, ambiente hormonal, alterações imunológicas, inflamação, capacidade de implantação celular e mecanismos de metaplasia ou disseminação podem atuar em conjunto.
Uma doença de origem multifatorial
Perguntar como surge a endometriose parece simples, mas a resposta envolve diferentes mecanismos biológicos. Nenhuma teoria isolada explica todas as localizações, idades de apresentação e formas clínicas. O modelo contemporâneo integra fatores celulares, hormonais, genéticos, epigenéticos e imunológicos.
Isso também ajuda a compreender por que a doença varia tanto entre as pacientes. Pessoas com lesões anatomicamente semelhantes podem apresentar intensidade de dor, progressão e impacto reprodutivo muito diferentes.
Menstruação retrógrada
A teoria mais conhecida propõe que parte do sangue menstrual retorne pelas tubas uterinas e alcance a cavidade pélvica. Células endometriais viáveis poderiam então aderir ao peritônio, invadir tecidos, desenvolver novos vasos e formar lesões.
Entretanto, a menstruação retrógrada é frequente também em pessoas que nunca desenvolvem endometriose. Portanto, ela pode contribuir para muitos casos, mas não é suficiente por si só. A sobrevivência das células depende de um ambiente permissivo e da capacidade do organismo de eliminá-las.
Implantação, invasão e formação de vasos
Para persistir fora do útero, as células precisam aderir, atravessar barreiras, evitar a depuração imunológica e obter suprimento sanguíneo. Moléculas de adesão, enzimas que remodelam a matriz extracelular, angiogênese e neurogênese participam desse processo.
As lesões não são estruturas estáticas. Elas interagem com o peritônio, células imunes, vasos e fibras nervosas. Com o tempo, podem ocorrer fibrose, retração e aderências, modificando a anatomia pélvica.
Metaplasia e células progenitoras
A teoria da metaplasia celômica sugere que células do revestimento peritoneal possam transformar-se em tecido semelhante ao endométrio sob determinados estímulos. Esse mecanismo é relevante para explicar apresentações que não se encaixam facilmente na menstruação retrógrada.
Outra linha de investigação envolve células-tronco ou progenitoras originadas do endométrio ou da medula óssea. Essas hipóteses permanecem em estudo e provavelmente representam partes complementares, não explicações mutuamente exclusivas.
Disseminação linfática ou vascular
Células semelhantes às endometriais podem alcançar locais distantes por vasos linfáticos ou sanguíneos. Essa hipótese contribui para explicar formas raras fora da pelve, como endometriose pulmonar ou em outros órgãos.
A endometriose de cicatriz abdominal pode ocorrer após procedimentos uterinos, como cesariana, por implantação direta de células no trajeto cirúrgico. Nem toda forma extrapelvica, porém, decorre de cirurgia.
Predisposição genética e epigenética
A endometriose apresenta agregação familiar e herdabilidade relevante. Estudos genômicos identificaram diversas regiões associadas ao risco, mas não existe um único gene determinante. O risco resulta da combinação de numerosas variantes, cada uma com pequeno efeito, em interação com fatores biológicos e ambientais.
Mecanismos epigenéticos — alterações na regulação dos genes sem mudança da sequência do DNA — também podem influenciar resposta hormonal, inflamação e comportamento das células. Testes genéticos de rotina ainda não diagnosticam nem predizem individualmente a doença.
Sistema imunológico e inflamação
Macrófagos, células natural killer, linfócitos, citocinas e outros componentes da imunidade participam do reconhecimento e da persistência das lesões. Na endometriose, a depuração de células ectópicas pode ser menos eficiente, enquanto mediadores inflamatórios favorecem sobrevivência, formação de vasos e ativação das vias da dor.
A inflamação é consequência e também possível amplificadora da doença. Isso não significa que a endometriose seja uma infecção ou uma doença autoimune clássica.
Estrogênio e resistência à progesterona
A endometriose é considerada dependente de estrogênio. As lesões podem responder aos hormônios circulantes e apresentar produção local de estrogênio. Ao mesmo tempo, alterações na sinalização da progesterona podem reduzir os efeitos antiproliferativos esperados.
Esses mecanismos ajudam a explicar por que terapias hormonais capazes de suprimir ovulação, menstruação ou estímulo estrogênico podem controlar a dor em muitas pacientes. Tratamento hormonal controla atividade e sintomas, mas não define sozinho a origem da doença.
Por que algumas pessoas desenvolvem a doença?
O modelo mais aceito é o de suscetibilidade: células com potencial de formar lesões encontram um ambiente hormonal, imunológico e inflamatório favorável em uma pessoa geneticamente predisposta. Exposições ambientais e eventos ao longo da vida podem modular esse risco, mas ainda não existe uma causa evitável única.
A paciente não desenvolveu endometriose por culpa própria, por comportamento emocional, por uso de anticoncepcional ou por ter adiado a gravidez. Essas interpretações não são sustentadas pela literatura.
Implicações para o tratamento
Reconhecer a natureza multifatorial evita soluções simplistas. O cuidado pode precisar combinar supressão hormonal, analgesia, cirurgia em situações selecionadas, fisioterapia, tratamento de condições associadas e estratégias de saúde reprodutiva.
Ainda não existe método comprovado capaz de prevenir completamente o aparecimento da endometriose. O foco atual é reconhecer sintomas precocemente, evitar atrasos diagnósticos, reduzir o impacto da doença e individualizar o tratamento.
Perguntas frequentes
A endometriose surge porque o sangue menstrual voltou pelas trompas?
A menstruação retrógrada provavelmente contribui para muitos casos, mas é comum também em pessoas sem a doença. Predisposição genética, imunidade, hormônios e capacidade de implantação celular são necessários para explicar por que somente algumas pessoas desenvolvem lesões.
Endometriose é hereditária?
Existe componente genético e o risco é maior em familiares de primeiro grau, mas não há herança simples nem um único gene causador. Ter familiar afetada aumenta a probabilidade, não determina o diagnóstico.
Endometriose é uma doença autoimune?
Ela envolve alterações imunes e inflamação, porém não é classificada atualmente como doença autoimune clássica.
É possível evitar que a doença apareça?
Não existe estratégia comprovada que previna completamente a endometriose. Reconhecimento precoce dos sintomas e cuidado adequado podem reduzir sofrimento e complicações.
Referências bibliográficas
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As recomendações devem ser interpretadas no contexto clínico individual. Diretrizes apoiam, mas não substituem, o julgamento médico e a decisão compartilhada.
Metodologia editorial
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